Quem nunca escutou que “rir é o melhor remédio”?  É possível considerar que para além desse dito popular o humor traduz de forma criativa um modo de lidar com a dor, com as verdades humanas e ainda ter prazer nisso, isto é, encontrarmos uma forma de lidar com os aspectos complexos da vida ousando rir.
 
A psicanálise trabalha com o humor e o entende como um recurso muito importante para a expansão do indivíduo, sendo assim o rir bem como o rir de si mesmo são fundamentais para a nossa saúde mental.


Rir de si mesmo inclusive traz em seu bojo a compreensão de que mesmo reconhecendo que somos falíveis e que as nossas verdades não são absolutas, as imperfeições da vida podem ter um ar de “graça”: graça aqui não só no sentido da benevolência mas também de simpatia. E o resultado? Um alívio e um respiro no modo de viver e que nos leva a compreender o humor como um instrumento terapêutico.


Quer melhor modo de lidar com os sofrimentos psíquicos do que gargalhando dos nossos fantasmas? Que melhor saída para as as ameaças constituintes da condição humana como a  sexualidade, o envelhecimento e a morte? Pense: outras  defesas para lidar com tudo isso são mais complexas e  promovem pouca expansão tais como, drogas, sublimações, delírios…


Por que rimos tanto com os humoristas? Por que muitas vezes nem entendemos o que nos leva a achar tanta graça em piadas que aos nossos olhos são tolas, simplórias e vazias de conteúdo? Porque os humoristas se permitem ir no que há de mais primitivo no homem? São capazes de penetrar nas sutilezas e desta forma brincar com as mazelas e com a fragilidade do humano… Os humoristas têm a capacidade de dizer tudo o que sabemos ou pensamos, mas somos censurados pela cultura, por uma moral deturpada que nos ensinou que rir e brincar não são atitudes sérias.


O artista com a sua sensibilidade desconstrói essa verdade. São privilegiados porque entenderam que há uma forma de lidar com os temas mais complexos tais como, conflitos, dores e desgraças fazendo graça, rindo de si, rindo do outro e levando o outro a rir.
Se rimos tanto do que muitas vezes chamamos de bobo e simplório é porque entendemos a piada. Se ficamos indignados e horrorizados com a ousadia contida no texto do artista é porque também o entendemos. E se entendemos a piada é porque de alguma forma fazemos parte desse contexto. Como? São vários os motivos e motivações… Por exemplo, é possível nos reconhecemos na história ou ainda os nosso medos e preconceitos.


Sendo assim, a piada só é piada quando compreendida e ao compreender já estamos inseridos nesse contexto que foi descortinado pelo artista. Ao abrir as cortinas o que aparece ali são as nossas contradições, falhas e imperfeições.


Freud nos ensina que o humor é sempre uma maneira de lidar com o recalque, com o que não pode ser dito de outra forma. É uma maneira de enunciar uma verdade que tem seu caminho bloqueado.Quer melhor forma de olhar para todas as questões da vida e aprender a “gozar” com elas do que achando a vida “gozada”?  Há quem goze com a dor no entanto há os que “escolhem” gozar com o humor.


Seria importante aprendermos a nos distanciar dos dramas impostos pelas nossas neuroses, e o humor é uma ótima forma de olharmos para a nossa história por outros pontos de vista. Penso que um dos caminhos para desenvolver o humor, isto é: rir do outro e de si mesmo, vai passar primordialmente pela experiência no corpo: brincar mais, dançar mais, cantar mais… Para isso será fundamental resgatar a criança que nos habita e que  foi reprimida (muito provavelmente porque em algum momento nos disseram que ser criança não é ser sério). Por outro lado existem pessoas que não conhecem e nunca conheceram a “sua criança” pois não puderam experimentar a diversão, as experiências infantis, a liberdade de expressão dos primeiros anos, a falta de censura primordial até a entrada da lei que vai dando um contorno a existência. Para quem pertence à esse grupo não é fácil e é muito provável que para experimentar uma maneira mais jocosa de “frequentar o mundo” precise passar por um processo terapêutico.


Sendo assim a possibilidade de rir, ser bem humorado e fazer graça não é uma condição do coletivo… A diversão está para além do encontro com o outro. O ousar rir é sempre da ordem do infantil e sendo assim o indivíduo precisa, na verdade, estar sempre acompanhado da parte dele que sabe brincar, achar gozado… ser gozado… gozar….

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