A pré-adolescencia e a adolescência são fases curtas ao considerarmos toda a vida humana. Por isso, diferente da infância onde desde o nascimento até a puberdade a criança cresce muito com as  experiências no seu núcleo familiar e na escola, na fase seguinte ela precisará viver situações importantes para a sua saúde emocional e relacional na fase adulta. 
Estas acontecem através da possibilidade de expandir suas trocas afetivas para fora de casa.

Vejamos então pontos importantes a serem considerados: 

  • O olhar da criança para outros modelos de adultos que não os pais. Geralmente são escolhidos pais de amigos como referência.  
  • Encontrar a sua “turma”, agora não mais por imposição escolar ou familiar, mas sim por identificação. 
  • Os encontros sociais onde podem falar uma “língua própria”, isto é, exercitar autonomia e compartilhar alguns temas que não são falados em casa. 
  • Os encontros, as paixões …
  • O ficar, ficar sério e namorar (passos atuais destinados aos encontros amorosos). 
  • O toque, o sentir (seja nos encontros truculentos através dos jogos, seja maquiando umas às outras). São momentos esperados com muita expectativa: futebol, festinhas, rolês… 
  • E os ritos de passagem: festa do pijama, formatura, festa de 15 anos, barmitzva, inicio da faculdade com trotes e suas aulas presenciais, chopada da faculdade… 
Adolescentes na pandemia. Foto de Gabriella Clare Marino.

Nossos pequenos e grandes jovens estão perdendo a maioria dessas experiências  nesses últimos dois anos. Será  preciso então acompanhar os resultados desses impedimentos. 

Como sairão dessa vivência limitadora impedidos de sentir, experimentar e viver o que só agora, só “nessas idades” faz sentido? 

Ao escutar esses jovens na clínica tenho percebido o esforço para se reinventarem, mas muito deles angustiados pela sensação das inúmeras perdas.

Os pais, mesmo com as suas dores pelo que também estão vivendo na pandemia, precisam entender que são os adultos da relação, e por isso precisam ouvir as mudanças em casa.

Algumas mudanças frequentes:

  • O isolamento do jovem;
  • Os conflitos com irmãos ou pais;
  • As mudança de humor;
  • Choro ou acessos de raiva constantes;
  • Tristeza profunda;
  • Uso excessivo de eletrônicos; 
  • Introspeção;
  • Falta de apetite ou compulsão alimentar; 
  • Reclamar de dores constantes sem nenhum motivo clínico.

É fundamental acompanhar e prestar atenção, por exemplo, se: 

  • O mal-humor é esporádico ou tornou-se presença constante? 
  • Há mudança constante de humor ao longo do mesmo dia?
  • Várias das descrições a cima acontecem ao mesmo tempo? 

Atenção:

Não considere que seu filho, por estar quieto no quarto “fazendo as coisas dele”, está bem. O silêncio muitas vezes é mais perigoso do que um ataque de raiva. Quando há sintomas explícitos temos a denúncia do sofrimento e é mais fácil socorrermos. 

Lembre-se:

Seu filho muitas vezes não está sozinho no quarto dele. Tem o mundo nas suas mãos.  Nesse sentido não é difícil pra ele ” navegar” por outros mundos em substituição  às limitações do momento. Muitas vezes são encontros que provocam muitas perturbações como um mar agitado e o jovem, ao tomar uma direção, pode mudar o sentido da sua história. Não há dúvidas que é muito mais fácil para todos nós reconhecermos o modo de funcionamento dos nossos filhos quando conhecemos os seus amigos, os lugares que ele frequenta, como chega em casa depois das festas ou dos encontros…

Nas redes sociais não será  possível conhecer boa parte do que acontece se não estivermos atentos: para isso será necessário embarcar, dar uma olhada na tripulação e passageiros dessa viagem. De outro modo, muitas vezes ficamos impossibilitados de socorrer e ajudar pois perdemos a viagem. 

Modos de acompanhar esse processo: 

  • Abrir espaço para o diálogo com seu filho, mesmo que ele resista inicialmente, fale o quanto essa troca será importante para vocês. 
  • Procure olhar os sites que ele busca, quem ele segue. Isso mostra quais as “ciberstribos” do seu interesse.
  • Busque fazer atividades em conjunto, por exemplo, um programa de atividade física, assistir uma série juntos, jogos de tabuleiro em família, cozinhar…

Embora algumas dessas características apareçam naturalmente nessas fases, o que falta agora é o respiro que se tinha quando podiam se sentir mais livres, produtivos, engajados e felizes.

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