Qual o lugar da criança na relação com os pais após a separação ou o divórcio?


É comum homens e mulheres se fecharem para o mundo após a separação ou o divórcio, deixando encoberta a sua sexualidade ou escondendo-a dos filhos como se fosse errado apaixonar-se e viver outros relacionamentos. No entanto, é prejudicial pensar que só a criança é importante e que é preciso viver unicamente para ela. O que pode ser da ordem do trauma é a criança olhar para esta mãe ou este pai onipotente, identificar-se com ela ou ele e achar que realmente se bastam mutuamente.


Os pais têm a tendência a se manterem reservados quanto à entrada de uma terceira pessoa na relação entre eles e o filho após o divórcio. Porém, é muito importante que a criança não ocupe o lugar de um dos cônjuges, pois esta função estaria além da sua posição de filho — o que não seria nada saudável.


Pais e mães acabam abrindo mão dos seus desejos como homens ou mulheres usando para este fim sua condição de pai e mãe. É comum escutarmos afirmações do tipo: “Agora vou viver apenas para os meus filhos e eles serão sempre prioridade na minha vida”, “Homem não presta, não quero mais saber de homem na minha vida” ou “As mulheres são todas iguais, não quero mais saber de casamento”.


Os pais, muitas vezes por se sentirem culpados pela separação, colocam-se como reféns dos filhos. Esta não deixa de ser uma forma de compensação encontrada para amenizar algumas das dores geradas pelo divórcio ou para aliviar as angústias oriundas de um casamento fracassado. Contudo, não é possível, após uma separação, colocar a criança como único objeto de desejo. E, caso o substituto do marido ou da esposa ausente não seja um namorado(a), é preciso escolher algo que traga satisfação, como a prática de um esporte, encontros com amigos e com a família, passeios…


Os pais tornam-se presas fáceis após a separação quando não encontram vida além dos filhos. Escravizados, agem sempre no sentido de atendê-los. Se esta situação for analisada com cuidado, pode-se perceber que há uma perversidade em jogo, pois a criança que acaba entrando nele para suprir a carência e o vazio deixado pela separação tem sua onipotência reforçada. E o que lhe resta é fazer suplência à falta marcada pela ausência de um dos pais na vida do outro. Logo, ela também acaba aprisionada, com pouco direito a fazer experiências fora desta relação.
O adulto também não pode criar a fantasia de que é onipotente e que, portanto, a criança após a separação poderá prescindir de um dos pais. Assim como não pode recorrer a este mecanismo para mostrar ao outro que não precisa dele para educar a criança. Mãe e pai não têm este direito!


É preciso lembrar sempre que os filhos não podem ser usados como objeto dos pais nem para negociações, nem como mediadores e tampouco como alvo de disputa. A criança precisa ficar distante dos rancores, das raivas e dos desejos de vingança que muitas vezes surgem após a separação. Deixe-os fora disso!


Tanto o pai quanto a mãe são importantes para que os filhos cresçam bem e estes aprenderão muito relacionando-se com cada um dos pais. Portanto, é muito saudável que o pai e a mãe mantenham preservada a imagem do outro.


Entre diversos fatores, a presença da mãe e do pai na vida da criança será importante porque a menina precisa de mulheres para se constituir mulher e o menino precisa de homens para se constituir homem. O filho precisa, ainda, que estes pais vivam novas experiências (além de pai e mãe) para que ele também possa ter outras experiências além do papel de filho. Ele precisa testemunhar tudo isso tanto como espectador quanto como parte constituinte do processo. Talvez seja este o significado do velho ditado “É preciso criar os filhos para o mundo” — criar os filhos para o mundo é criar-se e se (re)criar junto a eles. Algo diferente disto seria acorrentá-los por toda a vida à condição de filhos da mãe ou filhos do pai.

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