Nos últimos tempos, tenho escutado na clínica pais angustiados porque suas filhas estão “ficando” com outras meninas. Esse fenômeno não é determinante e pode ser compreendido como uma nova forma de experimentar o diferente.

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Adolescência – fase das mudanças, das experiências, das paixões e da necessidade de pertencimento.


Neste sentido, o que acontece entre os 11 e os 18 anos é de uma intensidade impossível de mensurar. É nesta fase que as experimentações acontecem sem o compromisso de encontrar fórmulas que levem à exatidão. Ao contrário: o fim muitas vezes está no próprio experimento.
Catalogá-los também não faria sentido, pois são provisórios e improvisados. São potentes e onipotentes, o que os faz viver o aqui e o agora sem medo de errar, sem lembrar que existe o amanhã. Estão andando sempre na contra-mão, contra a mãe, contra o pai… Mas também não sabem muito bem a favor de quem. São inflamados quando amam e quando odeiam, e tudo isso pode acontecer dentro de um mesmo minuto.


Nos últimos tempos, tenho escutado na clínica pais angustiados porque suas filhas estão “ficando” com outras meninas. Esse fenômeno não é determinante e pode ser compreendido como uma nova forma de experimentar o diferente. Sendo assim, não coincide com a orientação sexual da meninada.


São diversos os motivos que podem levar uma menina a beijar outra: curiosidade, modismo, carência afetiva, desejo de fazer parte de um grupo, brincadeira, bem como a orientação homossexual ou bissexual de fato. É preciso considerar que tal orientação é individual e diz respeito às sensações experimentadas no próprio corpo diante de um outro. Esse é o motor que leva um indivíduo, a partir da adolescência, a se relacionar amorosamente.


As meninas se aproximam e, em geral, sentem muito prazer na companhia que fazem umas à outras. São encontros alegres, divertidos e com trocas de confidências. Na puberdade, alguns desses comportamentos podem sugerir a ideia de uma relação homossexual. Na maioria dos casos, não ultrapassam ao cuidado mútuo entre elas: gostam de andar de mãos entrelaçadas, braços dados, se abraçam, acariciam-se… E tudo isso pode ser muito prazeroso, sexualizado sem necessariamente ser sexual.


O prazer aqui pode ser entendido como uma manifestação auto-erótica. Para Freud, a sexualidade adulta é predominantemente infantil e por isso não se reduz nem à genitalidade, nem à reprodução. Portanto, cai por terra a interpretação biologizante da experiência sexual. O que está em jogo é a pulsão e, para a pulsão, não há um objeto pré-determinado.


No entanto, podem ocorrer experiências homossexuais ocasionais ou experimentais, que muitas vezes “desaparecem” após a adolescência. É possível escutar nos relatos das jovens que experimentam relacionamentos com mulheres, que o envolvimento aconteceu em função da busca de uma troca em que houvesse mais respeito a diferenças, mais diálogo, liberdade e parceria. De acordo com elas, essas características são encontradas mais facilmente nos relacionamentos homossexuais.


Podemos pensar que não há limitação ao que se refere à sexualidade e que qualquer relação pode ser provisória. Encontros amorosos entre meninas não serão determinantes na orientação sexual de cada uma delas, mas certamente define uma nova forma de se relacionar nesta fase da vida. O que acontece muitas vezes é que, a partir das experiências, cai por terra uma falsa certeza que se tinha sobre a orientação sexual que conduz para a escolha do parceiro.


Não há nada de novo no que assistimos hoje diante das mais variadas formas de amar e explicitar o amor. Antes, só havia uma repressão maior, que favorecia inclusive o adoecimento psíquico. Sendo assim, os tempos atuais não produzem um modo homossexual de se relacionar, mas sim um favorecimento, uma abertura àqueles que há tempos atrás não explicitavam seus desejos sem culpa, ou sem repressão.


Como não há receita ou um único “modo de fazer”, é preciso considerar todos os ingredientes sem descriminá-los.

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