Se desde o início os pais compreendessem que os filhos, apesar de nascerem deles, precisam partir… seria bem mais fácil!

 
“Ei, mãe, não sou mais menino

Não é justo que também queira parir meu destino

Você já fez a sua parte me pondo no mundo

Que agora é meu dono, mãe

E nos seus planos não estão você”


 
Este trecho da música “Filho Único”, do Erasmo Carlos, expressa com muita clareza o que sente uma criança ou um jovem adolescente quando está sob as amarras dos pais e não consegue crescer e sair em busca de novos horizontes.


Nem sempre é fácil, sobretudo para as mães, perceber o filho crescendo e alçando novos vôos. Se elas pudessem rever suas vidas com seus filhos perceberiam que muitas vezes a dificuldade de adaptação é mais delas do que das crianças.


A criança e o jovem só terão possibilidade de crescer e buscar novos caminhos se a mãe estiver disposta a vivenciar os inúmeros “partos” a que essa relação a impele – não é um processo simples e muitas vezes ele se dá à custa de muita dor, muito sofrimento e até mesmo angústia.
Vamos tentar fazer uma retrospectiva e pensar nos momentos em que é necessário “deixá-los ir”. Nesta retrospectiva é preciso pensar que a grande importância que as mães têm na vida dos filhos não é anulada ao prepará-los para o mundo.


Para muitas mães o nascimento do filho já é sentido como uma perda, como se algo se tivesse rompido. As mães que fazem um quadro de depressão pós-parto são um exemplo.


Após o nascimento o bebê vive uma relação de continuidade com essa mãe: ele não se percebe como um ser separado dela. É a mãe que, aos poucos, vai apresentando o mundo à criança. O que quero marcar aqui é que, por mais que a mãe tenha disponibilidade interna e exerça o seu papel, essa mesma mãe, muitas vezes, sente como se algo estivesse sendo perdido – quando outras pessoas passam a ser importantes na vida do bebê, ela vive a fantasia de que o amor do bebê por ela fica ameaçado.


A culpa sentida por muitas mulheres quando deixam seus filhos aos cuidados da babá ou da avó, por exemplo, também pode estar referenciada à abertura de espaço para que outras pessoas participem da vida dos pequenos.


Quantas vezes acompanhamos na clínica o sofrimento de mães ao serem “deixadas” pelos seus filhos nas portas das creches e escolas de Educação Infantil! Um sentimento real de dor e perda é vivido diante da cena da criança muito sorridente partindo com sua professora e deixando para trás um aceno com as mãos.


Quando, ao contrário, a adaptação da criança à escola se mostra difícil, as mães, ao mesmo tempo em que chegam à clínica preocupadas e em busca de ajuda, também demonstram um certo ar de gratificação e recompensa: “Sou insubstituível”, “sou muito importante para o meu filho”.Não que as mães façam este movimento conscientemente, mas ele é percebido ao longo da entrevista e a partir do que vai sendo colocado sobre a criança e a sua história de vida.


A mãe sempre deve questionar-se quando se pegar usando expressões tais como: “Nossa, ela é muito agarrada comigo!”, “Não adianta, ela não vai mesmo com você!”, “Somos muito ligadas uma à outra, tudo ela quer fazer junto comigo”, “Nem com o pai ela fica”… O ganho materno frente a essas situações certamente marca perdas na vida da criança.


Mais à frente será normal que os amigos passem a ser mais importantes do que os próprios pais, que os pais dos amigos passem a ser mais interessantes e compreensivos do que os seus próprios pais. E é desta forma que os valores vão sendo construídos e reconstruídos e as diferenças, marcadas.Só é possível saber, pelo menos em parte, no que seu filho se tornou se ele puder testar as aprendizagens obtidas no âmbito familiar vivendo novas experiências em novos contextos.


Mais à frente os namoros, os intercâmbios, as viagens, as mudanças de estado ou de país, os casamentos, por exemplo, vão de fato mostrando que a sua importância como mãe se alargou e se tornou do tamanho do mundo.


Se desde o início os pais compreendessem que os filhos, apesar de nascerem deles, precisam partir… seria bem mais fácil!


E tudo começa lá nos primeiros encontros com o bebê, na primeira escola maternal, quando a criança pede para dormir na casa do coleguinha, quando começa a ir à padaria sozinha, voltar da escola de ônibus…


Afinal, é a lei (não sei se tão natural) das coisas, mas, como diz um outro trecho da música do Erasmo Carlos:


“E quem tá na chuva tem que se molhar
No início vai ser difícil
Mas depois você vai se acostumar”.

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