Gostaria de me pronunciar a respeito do que há por trás da disputa que está acontecendo entre Tânia Bernardelli e Otávio Rocha, pais da filha de 3 anos.Não me prenderei aqui aos aspectos legais que envolvem o tema, mas sim aos aspectos afetivos e psíquicos que envolvem a criança.


Para quem tiver interesse em ler o caso, saiu hoje, 10/04/2018, uma matéria no Globo em Sociedade escrita pela jornalista Helena Borges. (O print da matéria está no final deste artigo.)


Em resumo, temos uma criança de 3 anos que há um ano acompanharia a mãe para a Espanha, pois esta iria investir no seu doutorado em Sociologia. Segunda Tânia, Otávio teria permitido a ida da filha voltando atrás nos dias próximos a viagem. Tania vai com a promessa de que organizaria as coisas por lá e voltaria para buscá-la. Otávio mais uma vez não cumpre o combinado, saindo do Rio de Janeiro e fixando residência no Pará.


Acompanhando os relatos foi negado à Tania o direito de saber da filha e ao retornar ao Rio de Janeiro recebe e-mail do ex-marido dizendo que ela só poderia saber da filha por e-mail… e aí começa uma outra batalha.

Com muita luta e depois de um ano sem ver a filha, ao encontra-la não é reconhecida pela mesma.

E aí vem a pergunta que me foi feita pela jornalista do Globo: Estamos diante de um caso de alienação parental?

Estamos diante do que chamamos de “Romance Familiar”. A história nos captura e para analisarmos precisamos olhar para os conteúdos sem nos prendermos a ele. Também não se trata de analisarmos psicanaliticamente o caso pois não é possível escutar clinicamente fora do setting analítico e sem sermos convocados para ocupar esse lugar.

No entanto como psicanalista me permito escrever sobre o que penso, sobre o que estaria em jogo quando colocamos em evidência a saúde emocional e psíquica da criança.

Pais saudáveis entendem que independente dos aspectos sociais, culturais, filosóficos, econômicos que marcaram as suas histórias individuais ou a do casal, podemos dizer que o que está sempre em jogo, no que se refere a educação de crianças, são as questões que atravessam o tempo e estão relacionadas aos primeiros anos de vida, Sem dúvida os primeiros anos são fundadores do psiquismo infantil e deixarão marcas posteriores no indivíduo.

Para ocupar as funções maternas e paternas, seria muito interessante se os pais pudessem revisitar as suas próprias infâncias, o que nem sempre é possível pois são lembranças que foram encobertas e que muitas vezes nos leva a ter atitudes complexas e punitivas ou autopunitivas no aqui e agora.

Nesse sentido, o modo como o mundo é apresentado a criança será de grande importância na construção da sua subjetividade.

Desde sempre a criança é sensível ao que lhe afeta e a sua estrutura psíquica é construída nessa relação com os pais. Sendo assim, como não considerar os estragos emocionais produzidos por um pai que não favorece e concretamente impede a filha da relação com a sua mãe?

Não podemos acreditar que há de fato um esquecimento dessa criança com relação a sua mãe. Sabemos que a experiência inicial da relação entre mãe/bebê constrói esse saber que estará marcado para sempre no corpo do indivíduo.

Não se trata de fazer uma análise selvagem, isto é, interpretar o que acontece com a filha de Tânia e Otávio. Mas não podemos deixar de pensar nos mecanismos de defesas psíquicos que favorecem qualquer ser humano diante de um acontecimento doloroso, sofrido e porque não dizer traumático.

O que quero dizer nesse artigo é que essa criança não foi protegida, não foi considerada nas questões do mundo desses adultos. Ainda que o pai não quisesse manter esse distanciamento da filha poderia ter cuidado no sentido de permitir a filha uma experiência com essa mãe: fotos, telefonemas, skypes, vídeos…

O ideal seria que todos que desejam tornarem-se pais desenvolvessem a capacidade de “sentir com”, isto é, de se colocar no lugar da criança, e perceber assim, quais os sentimentos e emoções estão implícitos no processo. Pais deveriam ser bons observadores.

O que assistimos é que possivelmente há nessa história o que chamamos de desmentido, isto é, a presença da mãe traz um reconhecimento seguido de uma recusa em saber. Pois todo saber comprometo o indivíduo e com a verdade que em primeira instância causa dor, angustia e ansiedade.

Desta forma o que podemos esperar de uma criança a qual não foi dada a possibilidade de fazer inferências sobre a história de cada um dos pais? O que será dessa criança se não for dada a ela a possibilidade de resgatar a sua história? Para onde irão as fantasias sobre a sua família de origem? Como construirá essa mesma criança, a sua própria família?

Essa mãe está marcada no corpo dessa criança e é preciso dar a elas o direito de ressignificar essa história. Se a história é apenas contada fica a criança aprisionada ao lugar de espectadora da sua própria novela, do seu próprio romance familiar.

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